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“Mais de 27.000 postos de trabalho por preencher no sector metalomecânico”

O entusiasmo em torno do Dia Nacional da Manufactura tem sido tão interessante que achamos por bem ir partilhando os melhores exemplos de todas as empresas e instituições que se têm juntado a esta nossa iniciativa.

“Nossa”. Não da Prodsmart mas de todos os que se decidirem juntar à mesma.

Um desses exemplos que nos agradou bastante foi a Agovi Metalomecânica. Uma empresa que criou um evento de Facebook e decidiu que vai parar a fábrica no dia 4 de Outubro para fazer um dia aberto, próprio desta “nossa” iniciativa.

Gostámos tanto da espontaneidade que decidimos publicar uma pequena conversa que tivémos com a Vera Morgado, Controller de Gestão na Agovi, para ficarmos todos a conhecer melhor esta empresa e que iniciativas vão ter para o Dia Nacional da Manufactura.

O que é a Agovi? O que produz?

A Agovi é uma empresa de metalomecânica, com sede em Braga, à beira do estádio municipal, que trabalha para a indústria de construção naval, no fabrico de enroladores de cabos para barcos, por exemplo. Também fabricamos para o sector da energia, nomeadamente da energia hídrica, para o qual somos fornecedores de equipamentos como turbinas, condutas, grelhas, etc. Trabalhamos também para fundições e empresas do sector automóvel, por exemplo, no fabrico de peças em construção soldada e maquinação. Também oferecemos serviços de reparação e manutenção desses mesmos equipamentos.

E qual é a dimensão da empresa?

A empresa tem cerca de 15 pessoas e factura anualmente entre 500 mil euros e 1 milhão. No último ano foram cerca de 750 mil euros. O nosso maior cliente é espanhol. Normalmente, aquilo que exportamos para o mercado comunitário está entre 40% e 60% da nossa facturação anual. Por via directa e via indirecta porque também temos alguns revendedores que exportam a partir de Portugal. Principalmente para Espanha.

Qual consideram ser a vossa maior vantagem competitiva?

As empresas do sector metalomecânico são ou muito parecidas ou muito diferentes entre si. Tanto pode encontrar uma empresa de metalomecânica que faz, por exemplo, panelas, como uma empresa de metalomecânica que faz peças para aviões. No nosso caso, o mais diferenciador talvez seja o trabalho que fazemos para o sector das energias renováveis. Nós somos fabricantes de equipamentos. Há muitas empresas em Portugal que são apenas vendedoras de equipamentos para produção de energia. Nós somos mesmo fabricantes. E somos altamente especializados. Para as dimensões das turbinas que nós fazemos, por exemplo, eu não conheço nenhuma empresa em Portugal que seja capaz de competir connosco. Depois há relações de confiança que se vão criando quer com os clientes quer com os fornecedores. E há muitos clientes que são também nossos fornecedores, por exemplo. Porque construímos componentes para essas empresas.

E como descobriram o Dia Nacional da Manufactura e porque é que decidiram aderir?

Nós recebemos aqui uma comunicação da Prodsmart, por email. Entretanto também vimos nas redes sociais. Achámos piada e decidimos partilhar. Decidimos aderir porque a nossa maior dificuldade, hoje em dia, no sector metalomecânico, é recrutar pessoal. E a verdade é que é muito raro ver, por exemplo, alguma criança a dizer que quer ser torneiro ou fresador ou serralheiro. A maior parte delas nem sequer sabe o que isso é. Faz todo o sentido divulgar e ao vermos a vossa iniciativa decidimos aderir e fazer um dia aberto, convidar a comunidade, principalmente os mais jovens, e chamar um pouco a atenção para o que é o sector metalomecânico. A AIMMAP identificou cerca de 27 mil postos de trabalho por preencher. E estes foram só os que foram detectados. Pessoalmente acredito que sejam muitos mais. Fizeram um estudo há três ou quatro meses e todas as empresas do sector associadas foram convidadas a participar. E chegaram a esses 27 mil com as empresas que responderam. Mas provavelmente haverá algumas que não responderam e eu acredito que o número seja superior a isso. Mas são pelo menos 27 mil postos de trabalho. E a oferta até é bastante variada. Há muitas empresas metalomecânicas de CNC, ou seja, que trabalham com equipamentos em que é só preciso programar e a peça corta-se sozinha. Nós temos essas e também temos equipamentos convencionais, ou seja, em que o trabalho é muito mais manual. E recrutar pessoal para trabalhar com essas então é o caos. Nós temos máquinas com quase 100 anos aqui. A maior parte tem 30, 40 anos. E arranjar operadores para essas máquinas é muito complicado. E esse é um dos motivos pelo qual a antiguidade nestas empresas é tão grande porque a rotatividade não pode ser como acontece nos serviços, é impensável. Só o período de aprendizagem, de formação, estamos a falar de vários anos. A Agovi é uma empresa já com alguma antiguidade. No próximo mês a empresa faz 40 anos. Só para dar uma ideia, a nossa média de idades são 46 anos e a antiguidade são 17. A maior parte das pessoas trabalha aqui há quase metade da história da empresa. O mais antigo trabalha cá há 38 anos. Praticamente desde o início.

Identificam como problema de recrutamento o facto de haver máquinas simultaneamente tão antigas e tão modernas e terem de recrutar pessoas com capacidade para trabalhar com ambos os tipos?

É um problema na parte do recrutamento. Na parte da tecnologia, não. Isto é espectacular, não há melhor. O que acontece é que acaba por haver muitas empresas do sector que se especializam só em peças e serviços de precisão. Não é o nosso caso. Nós trabalhamos em metalomecânica pesada. Fabricamos peças de grandes dimensões. Tudo o que é controlo de qualidade de milímetros é mais complicado para nós. Nós temos algumas máquinas que têm capacidade para garantir essa qualidade mas muitas não têm. Aí estamos a falar de um trabalho muito mais artesanal. Ou seja, nós temos que enquadrar aquilo que nós fazemos dentro do que é o controlo de qualidade mas nunca em sectores em que as margens de tolerância sejam abaixo do milímetro. É impossível. Enquanto que as empresas que tenham máquinas que trabalham com tecnologia de ponta, ou CNCs, ou coisas do género, conseguem fazê-lo e conseguem fazê-lo muito rápido. Nós não podemos operar nesses serviços assim. Não é que não o consigamos fazer. Conseguimos e fazemos bem. Mas demoramos muito mais tempo. Não trabalhamos numa lógica de fabrico em série. Trabalhamos projecto a projecto. Temos muitas obras que são parecidas mas exactamente iguais é muito raro. Ou seja, nós temos que trabalhar em peças que demoram mais. Muitas vezes uma produção nossa demora seis meses. Há muitas outras metalomecânicas que produzem em série. Temos fábricas vizinhas que trabalham na mesma indústria que produzem às 1000 peças por hora. Nós não fabricamos em série. Não conseguimos, nem queremos, competir com isso. Esse tipo de indústria precisa de muito mais de máquinas com tecnologia de ponta, inovação e focadas em que os tempos de produção sejam cada vez mais curtos. Nós procuramos a mesma eficiência mas numa lógica mais de conhecimento especializado. Nos sectores em que nós fazemos reparações, o que interessa muitas vezes é a disponibilidade de ir ao cliente, de reparar a máquina, de garantir que a produção deles não pára e que os nossos operadores saibam qual é o problema do equipamento. Nesse tipo de trabalhos não é a tecnologia de ponta que vence, é mais o conhecimento dos operadores. Estamos a falar de serralheiros, estamos a falar de soldadores, técnicos de hidráulica e não de máquinas de CNC.

E o que é que estão a pensar fazer para o Dia Nacional da Manufatura? Porque é que decidiram criar o evento de Facebook?

O que nós estamos a pensar fazer para esse dia, como trabalhamos com projetos, alguns muito longos, é fotografar as várias fases de uma produção do início ao fim. Basicamente estamos a apanhar o processo produtivo todo e tentar explicar o processo de fabrico desta indústria em particular. Estamos a pegar num projecto de energia e temos fotografado a parte da execução do projecto: a matéria prima a chegar, a ser cortada, a passar pelas várias secções, pelas várias operações. E com tudo isto, queríamos nesse dia apresentar uma exposição do sector metalomecânico. Como a nossa fábrica não é muito grande não sabemos ainda se vamos fazer isso aqui ou se vamos tentar arranjar um espaço próprio, como uma galeria em Braga ou mesmo uma escola, por exemplo. E depois queremos trazer uma ou duas escolas, dentro das idades mais adequadas, porque isto ainda é um sector com algum risco associado. Tanto que nós vamos mesmo parar a fábrica. E ter ainda uma turma aqui de manhã e outra à tarde numa das centrais hidroeléctricas nossas clientes. Ter uma turma de Gaia ou do Porto para visitar a central hidroeléctrica de Gaia e outra aqui de Braga nas nossas instalações. A explicar como se faz energia a partir da água e outra a explicar como se fazem as máquinas para fazer isso. Nós somos uma empresa pequena, não temos muitos recursos mas isto não nos parece nada do outro mundo. Até achamos giro. E ainda temos montes de tempo e já temos tudo mais ou menos organizado, é pacífico. E nós temos muito gosto em participar. Acho que faz todo o sentido em divulgar todos os sectores industriais. O nosso é-nos mais querido, estamos mais confortáveis em falar sobre isso. Mas na verdade isto devia acontecer em todos os sectores mais, por um lado, tradicionais, e por outro, industriais. A maior parte das pessoas não tem noção de como é que as coisas se fazem, como é que vêm parar à nossa mão. E é fundamental explicar isto, como é que as coisas acontecem. Nós trabalhamos em business 2 business, não trabalhamos com consumidores finais. É normal, a não ser que seja em conversas de família ou com os amigos, nós não explicarmos o que é que fazemos. Quem vem cá já sabe o que é que nós fazemos, não temos necessidade de explicar isto. É também por isso que temos muito gosto em participar! Achamos que é preciso dar visibilidade a esta realidade, principalmente aos mais novos. O Dia Nacional da Manufactura é uma boa forma de nós conseguirmos mostrar o que fazemos.

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